How soon is now?

                                                       do Arthur

(de verdade)
imagina

um recorte de revista
de mim deitado numa cama uma foto do mundo
no fundo bem grande um poster e uma sessão
de fotografias

existe um nome técnico para vídeos
feitos de fotografias mas agora
não me lembro

eu no Brasil:
Rio de Janeiro
eu recorte
e aí uns recortes de sons
The Smiths

e eu vou subindo

primeiro a parte direita sobe
na primeira foto meus pés
porque eu estou deitado aí
minha cabeça isso em fotos

sucessivas
muito rápidas

não tão rápidas
que não dê para perceber que são fotos
individuais

aí vou subindo assim e em menos
de três segundos eu estou fora
do mundo o vídeo dura uns cinco
segundos é o suficiente

Carlos,


Espero que eles deixem de interceptar nossas cartas.

Ontem acordei melancólico & inquieto - e você já deve saber que essas palavras significam a mesma coisa. Eu deveria ter voltado a ler Che Cos'è la Poesia, que está aqui jogado no chão do quarto desde que Daniel voltou do exílio. Ele me convence que Derrida é chato. Mas só metade. Entretanto, percebi que precisava ler Ana C. e, para ser honesto, esse era o menor de todos os problemas. Ana C. não ajuda, nunca se iluda. Então um dia você me disse que todos os poemas eram de amor e que a poesia salvava. E não é nada disso. Foi exatamente depois de "Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios" que vi: preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios. Esse é o plano. Preciso antes aprender a ler as partituras.

Olho a cidade e fumo com uma volúpia que não é minha. Parece os primeiros dias. A cidade vai acendendo-se toda e eu vejo de cima e parece os primeiros dias. É muito estranho pensar que você não está aqui. Como se eu estivesse roubando. Mas, te prometo, não estou. Ela foi e será mesmo sua. Eu ainda sou um estrangeiro e desde que voltei tenho vivido como nos primeiros dias, mas sem você. Para isso não existe metafísica. Está tudo errado.

Armando me ligou perguntando sobre o próximo livro. Disse que sairá em breve e terá um nome complicado. Mas é mentira. Eu já não escrevo mais e isso faz tempo. De manhã, ando de bicicleta - agora é muito mais possível, a cidade de uma hora para outra se tornou plana, acho que por conta das eleições. De tarde leio o jornal e tomo chá com Daniel e ele me conta as coisas de Camboja - parece que vamos ter assunto para os próximos meses. À noite fico triste e isso implica eventuais leituras. Percebe? Não há tempo para escrever poesia. Também já não tenho mais saúde.

Queria escrever na sua mão a caneta Bic as coordenadas para se chegar na próxima estação de metrô
desejo-te boa sorte
o endereço quebrado
um número de taxi para a possível fuga. Agora as coisas são mais ou menos assim, bege e blue. Não há escolha. Você deveria ouvir mais vezes Armstrong pois tem cara de jazz e é muito bom quando você ouve jazz e me telefona bêbado. O problema todo é que resolvi não usar mais o telefone. Eu não gosto de vozes sem rosto, apenas as das cartas, e também as dos poemas. Amanhã começo a ler Whitman e acho que você está correto - é uma vergonha eu nunca ter lido Whitman.

Gostaria que estivesse tudo certo com você e essa primavera, só ontem consegui ver as fotos. Já está. Não se esqueça de olhar com mais cuidado aqueles versos do O'Hara, se você conseguir colocar o poema contra a luz, vai ver a matéria de que é feito. No mais, seja mais lírico - é só o que te resta. Mas, sobretudo, não se culpe, jamais se culpe. Somos parte de uma estatística que veio estampando a capa do jornal de hoje. A matéria dizia sobre juventude, alguma coisa sobre álcool e, possivelmente, uma questão filosófica escondida nas mensagens. Veja só: está tudo interligado! A culpa não é sua.

Espero te encontrar alegre e descalço quando chegar ao Brasil. Não se ocupe com o caos, apesar de ele ser a única coisa que restou daqueles dias. Antes de me despedir tenho de confessar que ainda não consigo perceber direito a diferença entre a realidade e a poesia. Isso passa, você já disse. O que eu precisava te dizer - isso era para ter sido no começo, antes de ouvir a primeira porta do carro
                                                                           eu sou inocente meu querido eu
                                                                           sou inocente.

Um abraço forte,

Otávio.

pena
imagina o poema
como uma carta
e no fim todos são

ele ao menos não
é necessário selar
apesar de ser possível
perceber os carimbos
das cidades por onde
passou

pode ser em uma palavra
mal cortada um verso que sobra
a preposição comida e te digo
doce herança portuguesa

por exemplo esse
leva parte oceano
punhado de terra
uma vida antiga

(somos tão menores
quando escritos nos
cartões postais)

Quetzalcóatl

eram uma civilização politeísta e acreditavam
que se o sangue humano não fosse oferecido
ao sol a engrenagem do mundo deixaria de
funcionar. o deus mais venerado era quetzalcóatl
a serpente emplumada

há referências a um deus sem face, invisível
desprovido de história mítica para quem o rei
mandou fazer um templo sem ídolos, apenas
uma torre. uma casa que espera.

sobre a figura desse deus um deles desenhou
seu rosto. por isso você é um marco na
cultura ocidental. ou pelo menos em
parte dela.

enquanto eu descendo de povos que celebravam
a violenta força do teu nome.

.

anotações para um futuro poema

                                                   para Anelise Freitas

penso no poema
como quem pede socorro
forma e corpo e tamanho
e dimensão e espessura
não são o poema

penso em um poema suspenso
com uma voz de lado que
toca-se - alguns - com as
pontas dos dedos
o poema é carne e sangue
e corpo e metáfora

por vezes o poema tem
a mesma largura que o grito
por isso penso no poema
como uma pista uma bússola
uma
âncora.

e fica

o poema não é a geografia do poema
o poema não é a distância do poema
o poema não é o motivo do poema

(em alguma latitude fracassada
o poema te encontra

longe: afoga)