Carlos,


Espero que eles deixem de interceptar nossas cartas.

Ontem acordei melancólico & inquieto - e você já deve saber que essas palavras significam a mesma coisa. Eu deveria ter voltado a ler Che Cos'è la Poesia, que está aqui jogado no chão do quarto desde que Daniel voltou do exílio. Ele me convence que Derrida é chato. Mas só metade. Entretanto, percebi que precisava ler Ana C. e, para ser honesto, esse era o menor de todos os problemas. Ana C. não ajuda, nunca se iluda. Então um dia você me disse que todos os poemas eram de amor e que a poesia salvava. E não é nada disso. Foi exatamente depois de "Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios" que vi: preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios. Esse é o plano. Preciso antes aprender a ler as partituras.

Olho a cidade e fumo com uma volúpia que não é minha. Parece os primeiros dias. A cidade vai acendendo-se toda e eu vejo de cima e parece os primeiros dias. É muito estranho pensar que você não está aqui. Como se eu estivesse roubando. Mas, te prometo, não estou. Ela foi e será mesmo sua. Eu ainda sou um estrangeiro e desde que voltei tenho vivido como nos primeiros dias, mas sem você. Para isso não existe metafísica. Está tudo errado.

Armando me ligou perguntando sobre o próximo livro. Disse que sairá em breve e terá um nome complicado. Mas é mentira. Eu já não escrevo mais e isso faz tempo. De manhã, ando de bicicleta - agora é muito mais possível, a cidade de uma hora para outra se tornou plana, acho que por conta das eleições. De tarde leio o jornal e tomo chá com Daniel e ele me conta as coisas de Camboja - parece que vamos ter assunto para os próximos meses. À noite fico triste e isso implica eventuais leituras. Percebe? Não há tempo para escrever poesia. Também já não tenho mais saúde.

Queria escrever na sua mão a caneta Bic as coordenadas para se chegar na próxima estação de metrô
desejo-te boa sorte
o endereço quebrado
um número de taxi para a possível fuga. Agora as coisas são mais ou menos assim, bege e blue. Não há escolha. Você deveria ouvir mais vezes Armstrong pois tem cara de jazz e é muito bom quando você ouve jazz e me telefona bêbado. O problema todo é que resolvi não usar mais o telefone. Eu não gosto de vozes sem rosto, apenas as das cartas, e também as dos poemas. Amanhã começo a ler Whitman e acho que você está correto - é uma vergonha eu nunca ter lido Whitman.

Gostaria que estivesse tudo certo com você e essa primavera, só ontem consegui ver as fotos. Já está. Não se esqueça de olhar com mais cuidado aqueles versos do O'Hara, se você conseguir colocar o poema contra a luz, vai ver a matéria de que é feito. No mais, seja mais lírico - é só o que te resta. Mas, sobretudo, não se culpe, jamais se culpe. Somos parte de uma estatística que veio estampando a capa do jornal de hoje. A matéria dizia sobre juventude, alguma coisa sobre álcool e, possivelmente, uma questão filosófica escondida nas mensagens. Veja só: está tudo interligado! A culpa não é sua.

Espero te encontrar alegre e descalço quando chegar ao Brasil. Não se ocupe com o caos, apesar de ele ser a única coisa que restou daqueles dias. Antes de me despedir tenho de confessar que ainda não consigo perceber direito a diferença entre a realidade e a poesia. Isso passa, você já disse. O que eu precisava te dizer - isso era para ter sido no começo, antes de ouvir a primeira porta do carro
                                                                           eu sou inocente meu querido eu
                                                                           sou inocente.

Um abraço forte,

Otávio.

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