já podemos sentir de novo a casa vazia
algumas palavras perderam o sentido
outras arranham as paredes como um bicho
você as deixa fechadas
foi então que começamos a anotar as coisas
nas cortinas. me pega na mão faz um desenho
temos um cubo de gelo e escreve: gelo
temos uma casa e escreve: casa
o carteiro já não vem e a isso
somam-se meses. pela vizinhança
espalha-se um boato de que aqui
dentro estamos todos mortos
se te desse agora uma fotografia
exatamente de agora sentada como está
quanto tempo levaria até que
escrevesse na parede o nome de lugar
algum?
Tradução: The divide, Edwin Morgan
O divisor
Eu continuo pensando em você - o que é ridículo
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
pararia meu lápis no papel.
O som estava ligado; você pediu os Stones;
e teve, teve café fresco, conversa.
As cortinas pesadas guardam uma noite selvagem.
Eu continuo pensando nos seus olhos, nas suas mãos.
Não há razão para isso, nenhuma mesmo.
Você diria que eu não posso ser o que não sou,
também não posso estar onde estou.
Onde isso nos deixa? O que podemos fazer?
O silêncio depois de Jagger era como um manto
que eu teria jogado em cima de você - só havia
o vento, e o relógio andava enquanto você bebia,
segurando a caneca verde entre as duas mãos.
Não olhe para cima, assim, de repente!
Como é difícil não te assistir.
Tínhamos chegado a esse estágio de não falar
e não se preocupar, e que
era quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou, sobre o cotovelo, no carpete
eu não senti nada além daquela faca quente
de dor me dizendo o que isso era,
e eu não posso te contar, nem uma única palavra.
*
Eu continuo pensando em você - o que é ridículo
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
pararia meu lápis no papel.
O som estava ligado; você pediu os Stones;
e teve, teve café fresco, conversa.
As cortinas pesadas guardam uma noite selvagem.
Eu continuo pensando nos seus olhos, nas suas mãos.
Não há razão para isso, nenhuma mesmo.
Você diria que eu não posso ser o que não sou,
também não posso estar onde estou.
Onde isso nos deixa? O que podemos fazer?
O silêncio depois de Jagger era como um manto
que eu teria jogado em cima de você - só havia
o vento, e o relógio andava enquanto você bebia,
segurando a caneca verde entre as duas mãos.
Não olhe para cima, assim, de repente!
Como é difícil não te assistir.
Tínhamos chegado a esse estágio de não falar
e não se preocupar, e que
era quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou, sobre o cotovelo, no carpete
eu não senti nada além daquela faca quente
de dor me dizendo o que isso era,
e eu não posso te contar, nem uma única palavra.
*
amor
para Júlia de Carvalho Hansen
os poetas fingem, meu querido
deveria ser esta a primeira frase de um livro de poesia
ontem escrevi um cartaz e foi o primeiro desde que chegamos
a partir de hoje passo os dias contando grãos de café
e fingindo na língua que me é dirigida
o rui da padaria ontem faleceu
me chegaram correndo à porta que eu escrevesse qualquer nota
não me cabe ser fúnebre quando estou longe de casa
então fiz um poema de versos largos que dizia sobre o belo
rui era um homem grande
que talhava o pão como quem cria em cima de pedra
e só
há beleza na fotografia da estátua de adônis presa
em cima do balcão dos croissants
rui, me traz um café que não manche os bigodes
em certa medida todos os poemas são de amor
e como amei rui naquela tarde em que ainda não sabia seu nome
naquela tarde em que era cego e não me conhecia
mas rui morreu
por isso o amo
antes que me matem pretendo sair deste sítio
inventar outro rosto usar roupas novas talvez em lisboa
me cabe nos dedos mais cartas suicidas do que anéis
se as coloco sobre a cama pode ser que as perca
declararam uma guerra na porta de casa enquanto os meninos voltavam do colégio
rui, me traz um café que não manche os bigodes
pode ser que te ame mais do que amo o belo
pois sabem das invariações do amor e enquanto é possível
não é matéria de poesia
do mesmo modo um morto impossível é a figura mais íntima de um poeta
penso nesses mesmos meninos ao passarem em frente à padaria
ontem o padeiro faleceu
não cita-se nome
como se importassem nomes em tempos de guerra
amanhã entram em casa e me matam
faz menos que dez graus
talvez seja mais quente em lisboa
os poetas fingem, meu querido
deveria ser esta a primeira frase de um livro de poesia
ontem escrevi um cartaz e foi o primeiro desde que chegamos
a partir de hoje passo os dias contando grãos de café
e fingindo na língua que me é dirigida
o rui da padaria ontem faleceu
me chegaram correndo à porta que eu escrevesse qualquer nota
não me cabe ser fúnebre quando estou longe de casa
então fiz um poema de versos largos que dizia sobre o belo
rui era um homem grande
que talhava o pão como quem cria em cima de pedra
e só
há beleza na fotografia da estátua de adônis presa
em cima do balcão dos croissants
rui, me traz um café que não manche os bigodes
em certa medida todos os poemas são de amor
e como amei rui naquela tarde em que ainda não sabia seu nome
naquela tarde em que era cego e não me conhecia
mas rui morreu
por isso o amo
antes que me matem pretendo sair deste sítio
inventar outro rosto usar roupas novas talvez em lisboa
me cabe nos dedos mais cartas suicidas do que anéis
se as coloco sobre a cama pode ser que as perca
declararam uma guerra na porta de casa enquanto os meninos voltavam do colégio
rui, me traz um café que não manche os bigodes
pode ser que te ame mais do que amo o belo
pois sabem das invariações do amor e enquanto é possível
não é matéria de poesia
do mesmo modo um morto impossível é a figura mais íntima de um poeta
penso nesses mesmos meninos ao passarem em frente à padaria
ontem o padeiro faleceu
não cita-se nome
como se importassem nomes em tempos de guerra
amanhã entram em casa e me matam
faz menos que dez graus
talvez seja mais quente em lisboa
vídeo-poema: o espelho
o espelho
não se mede
tempo e espaço pelo tamanho da cidade
vila adentro
cidade velha
hoje a tarde e eu
mais velho do que as casas e as ruas de pedra
penso que amanhã
talvez não exista outra solução
que não a fuga
um rio corre calmo
eu não mergulho mãos para
se aprender a calma
eu corro
mais do que os carros
e os anos que ficam trancados
dentro da cidade murada
não cabe
o que pensei em fazer nos dias
em que lá em casa a luz era amarela
e anna chegava dizendo que agora sabia
a razão de eu ser poeta
e era
1. ser mais alto do que as montanhas
que protegem a cidade
(como se existissem montanhas além da linha do mar)
2. ser menor do que a vontade
de desistir do barco e dos furos no fundo do barco
durante a chuva
3. não ter pressa em conhecer os outros
mundos e as pessoas que existem dentro deles
4. conhecer antes de tudo a mim mesmo
e os mundos e as pessoas que existem dentro
por isso hoje
enquanto voltava à casa
escrevi uma carta
que apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar
por isso hoje
no caminho de casa
comprei um espelho
e o coloquei na porta
da sala
virado
pra rua
(e envelhecemos a casa
eu e a cidade
enquanto é dia
o espelho não)
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