os poetas fingem, meu querido
deveria ser esta a primeira frase de um livro de poesia
ontem escrevi um cartaz e foi o primeiro desde que chegamos
a partir de hoje passo os dias contando grãos de café
e fingindo na língua que me é dirigida
o rui da padaria ontem faleceu
me chegaram correndo à porta que eu escrevesse qualquer nota
não me cabe ser fúnebre quando estou longe de casa
então fiz um poema de versos largos que dizia sobre o belo
rui era um homem grande
que talhava o pão como quem cria em cima de pedra
e só
há beleza na fotografia da estátua de adônis presa
em cima do balcão dos croissants
rui, me traz um café que não manche os bigodes
em certa medida todos os poemas são de amor
e como amei rui naquela tarde em que ainda não sabia seu nome
naquela tarde em que era cego e não me conhecia
mas rui morreu
por isso o amo
antes que me matem pretendo sair deste sítio
inventar outro rosto usar roupas novas talvez em lisboa
me cabe nos dedos mais cartas suicidas do que anéis
se as coloco sobre a cama pode ser que as perca
declararam uma guerra na porta de casa enquanto os meninos voltavam do colégio
rui, me traz um café que não manche os bigodes
pode ser que te ame mais do que amo o belo
pois sabem das invariações do amor e enquanto é possível
não é matéria de poesia
do mesmo modo um morto impossível é a figura mais íntima de um poeta
penso nesses mesmos meninos ao passarem em frente à padaria
ontem o padeiro faleceu
não cita-se nome
como se importassem nomes em tempos de guerra
amanhã entram em casa e me matam
faz menos que dez graus
talvez seja mais quente em lisboa
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