vídeo-poema: o espelho


o espelho

não se mede
tempo e espaço pelo tamanho da cidade
vila adentro
cidade velha
hoje a tarde e eu
mais velho do que as casas e as ruas de pedra
penso que amanhã
talvez não exista outra solução
que não a fuga

um rio corre calmo
eu não mergulho mãos para
se aprender a calma
eu corro
mais do que os carros
e os anos que ficam trancados
dentro da cidade murada
não cabe
o que pensei em fazer nos dias
em que lá em casa a luz era amarela
e anna chegava dizendo que agora sabia
a razão de eu ser poeta

e era
1. ser mais alto do que as montanhas
que protegem a cidade
(como se existissem montanhas além da linha do mar)
2. ser menor do que a vontade
de desistir do barco e dos furos no fundo do barco
durante a chuva
3. não ter pressa em conhecer os outros
mundos e as pessoas que existem dentro deles
4. conhecer antes de tudo a mim mesmo
e os mundos e as pessoas que existem dentro

por isso hoje
enquanto voltava à casa
escrevi uma carta
que apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar

por isso hoje
no caminho de casa
comprei um espelho
e o coloquei na porta
da sala
virado
pra rua

(e envelhecemos a casa
eu e a cidade
enquanto é dia

o espelho não)

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